ASSIM É QUE INSTRUI Garzón. O seu auto está cheinho de inexactitudes e falsidades sobre as que deduz as suas teses. NEM EGIN tinha correio electrónico na altura, nem o documento de ETA se refere ao seu director...
é um amplo estudo publicado no nº de Sábado 25 de Julho de 1998 de EUSKADI INFORMACIÓN, o jornal que substitui o EGIN editado polas suas trabalhadoras e trabalhadores.
DONOSTIA
As adesons a EGIN e Egin Irratia, bem como os comunicados de protesto polo fechamento dos dous meios de comunicaçom nom cessam de chegar. Colectivos de toda Euskal Herria mostram-se escandalizados polo que qualificam como um ataque à liberdade de expressom.
O auto que o juiz Garzón ditou na passada Terça-feira afirma taxativamente que existe umha subordinaçom de EGIN a ETA, e que esta última marca os desígnios da primeira. A asseveraçom vai acompanhada de rotundas frases que, em boca de um analista político, poderiam servir para construir umha hipótese mal alinhavada que apresentar em qualquer tertúlia, mas que, em palavras de um juiz, poderiam resultar umha temeridade. Se em EGIN houvesse um redactor que faltasse ao rigor da forma que o fai este juiz, há tempo que teria sido despedido.
No seu auto, Garzón fai umha análise do que, a seu entender, é a esquerda abertzale, com umha marcada obsessom por criminalizar KAS, da que fai um percurso histórico de 1976, embora a coordenadora, na realidade, nascesse em 1975. A leitura do seu relato a este respeito desperta pouco interesse, pois comete graves erros e em muitos livros sobre a história recente de Euskal Herria se pode obter umha visom mais ajustada da realidade. Sem ir mais longe, a versom que oferece sobre o Congresso de HASI de 1987 e da dissoluçom desse partido em 1991 nom tem nada a ver com o que realmente se passou.
Mas, de quê estamos a falar? Da história da esquerda abertzale? De umha valorizaçom segundo a qual todo o mundo que tiver umha ideologia próxima da que poda ter ETA deve ser encarcerado? Do que nom se indica nada, desde logo, é da comissom de delitos por parte de EGIN e EGIN Irratia que justifiquem o seu fechamento.
Para além da questom relativa à famosa quebra fraudulenta, suficientemente aclarada na conferência de imprensa oferecida na passada quarta-feira, e que nom deveria investigar-se num tribunal como a Audiência Nacional, o juiz Garzón situa estes meios de comunicaçom na "frente informativa", e refere-se aos mesmos como se de comandos de ETA se tratasse. No entanto, quando quer demonstrar tal asseveraçam, a contundência do enunciado adquire tintes grotescos nos argumentos.
Valoraçons
A primeira acusaçom nom passa de riscar este jornal com um meio que informa mal, já que, segundo o juiz Garzón, EGIN tinha como funçom a "geraçom de umha realidade aparente, normalmente distorsionada de todo o ambiente que rodeia o dito movimento (MLNB) magnificando os sucessos". Umha opiniom que, mais do que um juiz, deveriam emitir os leitores.
Também lhe atribui o papel de "condutor da ortodoxia marcada pola direcçom de ETA". Polos vistos, o juiz censura, com grandes palavras, a linha editorial de EGIN na defesa de umha soluçom ao conflito em chaves democrática e de soberania. Enfim, o que depois deste auto sim sabemos é que o senhor Garzón nom gosta da dita linha.
Os labores e funçons que se atribuem a EGIN e EGIN Irratia -o valor provatório real nom passa de ser o dos preconceitos de um juiz espanhol- tentam-se suster com alguns "indícios".
Remonta Garzón até 1983 para dar um "dado policial" segundo o qual ETA teria realizado um translado de três milhons de pesetas a Orain S. A. "prévio concerto com o director do meio", quem hoje em dia ocupa a direcçom de Radio Euskadi e quem, ao ser perguntado polo fechamento deste jornal na semana passada, se limitou a dizer que esperava a ver o auto judiciário antes de se pronunciar sobre o mesmo. Pois aí o tem.
Aponta-se a um outro documento, retirado, segundo se di, a Josu Urrutikoetxea (hoje em prissom preventiva), em que se desenharia a linha informativa a seguir na secçom de Mundua de EGIN. O texto, intitulado "Sobre a linguagem política a utilizar no contexto europeu", é absolutamente desconhecido em EGIN e, portanto, nom tem qualquer vigência neste jornal, que apenas pode responder das suas reflesons e acçons, nom das que realizarem outros, for ETA ou o próprio juiz Garzón. E é precisamente isso, o relato de aspectos delituosos em que pudesse ter incorrido EGIN, o que falta no auto.
Em 1991, relata Garzón, acha-se num zulo de um comando de ETA material publicado no jornal clausurado sobre empresários, conselheiros e sedes vinculadas à construçom da rodovia. Como é conhecido, ETA compilou informaçom de todo o tipo de publicaçom, incluída a imprensa do coraçom. O razoamento -se puder ser chamado assim- deste auto suporia acusar de colaboraçom com bando armado todos os meios de comunicaçom.
O cúmulo dos cúmulos
Um outro dos indícios de Garzón é umha suposta reuniom celebrada em Fevereiro de 1992 por dous jornalistas de EGIN, Jabier Salutregi e Teresa Toda, naquela altura redactores chefes, o conselheiro delegado de Orain, Ramón Uranga, com um representante de ETA. De ser certa esta entrevista, nom seria a primeira que se produz entre a organizaçom armada e um meio de comunicaçom. Se nom, que perguntem a Pedro J. Ramírez, actual director de El Mundo e máximo responsável de Diário 16 naquela altura.
Inclusivamente, segundo informaçoms aparecidas na imprensa, nos dous últimos anos representantes de algum partido ao qual se atribui a etiqueta de "democrático" também mantivérom encontros com a organizaçom armada. Cabe sublinhar igualmente que este jornal tem publicado diversas entrevistas jornalísticas com ETA, sem que no seu lavor tenha colaborado na actividade desta organizaçom.
Polos vistos, Garzón quer demonstrar que ETA elegeu Jabier Salutregi como director de EGIN e é precisamente aí que comete o erro mais grave. A subordinaçom e dependência deste jornal à organizaçom demonstraria-se "porque nos arquivos denominados 'Garikoitz 93/5' (documentos encontrados polos vistos a um suposto militante de ETA em Agosto de 1993) informa-se à direcçom de ETA para que se pronuncie e exprima o seu parecer no que di respeito à pessoa que deve dirigir EGIN". Mas para a data de referência (primeiro semestre de 1993), Salutregi era já, de havia tempo, director deste jornal, cargo que mantivo até a actualidade.
A leitura do auto neste ponto, em que Garzón nom sabe nem do que está a falar -esses parágrafos do tal Garikoitz nom se referem nem a Salutregi nem a EGIN, nem a Orain-, provocárom irritaçom entre os trabalhadores de EGIN, ao comprovarem com que ligeireza se pode encarcerar pessoas, fechar meios de comunicaçom e deixar na rua muitos trabalhadores.
No auto desempoa-se também a causa por que foi processado e julgado Pepe Rei, redactor chefe de Investigaçom do citado jornal, sem que mencione que foi absolvido da mesma. Cita como indício igualmente que dous jornalistas de EGIN, Andoni Murga e Fernando Alonso, fôrom condenados por pertença a ETA. O argumento de Garzón poderia levá-lo a fechar agora mesmo as mais importantes empresas de Euskal Herria.
O aparecimento em EGIN de notícias relacionadas com possíveis futuras acçons policiais contra ETA serve para incriminar este jornal. Poderia-o fazer também em relaçom com os GAL, pois nas mesmas páginas informou-se de possíveis detençons de "galosos". Da mesma maneira, o argumento poderia servir para acusar outros jornais de colaboraçom com ETA por dar conta da preparaçom de operativos das FSE contra a organizaçom armada.
Como outros muitos
Garzón recorre a velhas campanhas de linchamento contra este jornal onde era acusado de assinalar objectivos de ETA, em concreto no caso de José António Santamaria e do ertzaina Joseba Goikoetxea. No primeiro caso, valha como exemplo, afirma-se que "EGIN na sua ediçom de 16-1-93, publicava um artigo agressivo sobre o empresário basco José António Santamaria Vaqueriza. Três dias depois sofre um atentado de ETA e morre".
Para além de que o nome de Santamaría apareceu com anterioridade noutros meios sendo relacionado com o tráfico de drogas, algo que nem se menciona na notícia de Egin, e que o seu nome se inclui no "informe Navajas". Nom fica claro se Garzón insinua que ETA, umha vez aparecida a reportagem, preparou o atentado em três dias ou que a organizaçom armada deu ordem para publicar o dito artículo e proceder depois à sua execuçom. Como ambas hipóteses atentam contra o mais elementar senso comum, e muito mais contra o senso que tem que imperar num juiz, o seu carácter de indício para demonstrar a supeditaçom a ETA é como mínimo um bocado ridículo.
Tam ridículo como afirmar, sem qualquer precisom nem o mais mínimo suporte jurídico, que "é digno de mençom o caso dos vereadores do Partido Popular assassinados no País Bascos depois de umha campanha coordenada de agitaçom de algumha das estruturas da órbita de KAS-ETA e que reflecte EGIN".
Quer-se criminalizar este meio de comunicaçom polo facto de que terceiros -um tal Coppola, segundo o auto- tenham enviado informaçom ao jornal e nom à direcçom de ETA. Alguém percebe algo?
Nom há nada
Aliás, fai-se alusom a questons que porventura se tenham falado na organizaçom armada, mas nom tivérom nunca qualquer reflexo no jornal represaliado. É o caso de um documento supostamente retirado a Mobutu, intitulado "Sarea", e de supostas chaves que usariam comandos de ETA ao reivindicarem as suas acçons para que EGIN pudesse verificar a sua autenticidade.
Embora este sistema pudesse ser bom até para salvar vidas -e cabe lembrarmos que as de muitas pessoas corrêrom perigo pola negligência das FSE após três chamadas de ETA a EGIN, anunciando a colocaçom de bombas-, como no aeroporto de Reus no verao de 1996 -dezenas de feridos porque a Polícia chegou tarde de forma suspeita-, é rotundamente falso que membros desta organizaçom telefonassem para o jornal dando um nome em chave que permitisse realizar a identificaçom suposta por Garzón.
O juiz, entre os seus indícios, assinala com reiteraçom a secçom de Merkatus (mensagens que os nossos leitores remetem polos correios para a sua publicaçom em forma de saudaçom, contactos ou similar), já que alguns detidos tenhem afirmado que se punham em contacto com outros membros de ETA através desta secçom, mediante mensagens em chave. Com certeza, o Cesid e os serviços de informaçom das FSE também utilizárom este mesmo meio para passarem mensagens.
De qualquer maneira, segundo informaçons aparecidas na imprensa, ETA tem utilizado outros jornais para fazer chegar instrucçons aos seus comandos. A questom jurídica estaria em saber se EGIN fai um lavor de correio sabendo-o. O auto nom o demonstra, pola simples razom de que nom é assim.
Mais "indícios". Acusa-se a rotativa deste jornal de ter imprimido um cartaz de Jarrai que denunciava vários jornalistas, cartaz "ameaçador" segundo Garzón. O caminho que vai daí a acusar pessoas relacionadas com Orain de pertença a ETA resulta já inescrutável.
Continuamos ponto por ponto. O auto acolhe e reproduz também um documento, supostamente retirado no gabinete de Isidro Murga, no passado dia 15, que di respeito à "Evoluçom de Orain condicionada e ligada à evoluçom e desenvolvimento do MLNB". Neste escrito realiza-se umha reflexom sobre esta empresa e EGIN a respeito da esquerda abertzale, sem que apareçam nem umha só vez as siglas de ETA. De novo é o juiz quem realiza a deduçom e as vincula ao documento.
Correio inexistente
Grande parte da subordinaçom e dependência que o juiz Garzón atribui a Orain a respeito de ETA fundamenta-se nos citados documentos retirados a J.M. Dorronsoro, em que um tal Garikoitz se dirigia à direcçom da organizaçom armada falando-lhe, entre outras questons, sobre o jornal.
Segundo estas comunicaçons, tal e como recolhe o auto, articula-se pola direcçom de ETA um sistema para que o director de EGIN receba através de modem as informaçons ou dados que a dita direcçom considerar oportunas. "Só o responsável do jornal conhecerá a chave para aceder a esse correio electrónico". Apostila o auto. Genial, se nom fosse porque o correio electrónico em EGIN é muio posterior às datas de referência. Genial, se o juiz Garzón é capaz de, após registar por completo as dependências das redacçons, mostrar o citado modem. Quê sorte tem de que ninguém da imprensa espanhola lhe vaia pedir contas a este respeito!
Em resumo, nos arquivos "Garikoitz" existem constantes alusons sobre EGIN, mas nengumha que demonstre que tenha realizado algo por ordem ou para ETA. Decerto que esta organizaçom tem análises de outras instáncias e empresas, e seguro também que outras estruturas absolutamente afastadas, somo os serviços de inteligência espanhóis, tenhem relatórios mais exaustivos sobre este jornal.
Nos citados arquivos fai-se alusom também a como se deveria "utilizar" EGIN Irratia para difundir a situaçom dos represaliados, em concreto dos deportados. O auto nom precisa se esta ideia, em qualquer caso pouco delituosa -porque a figura do deportado existe polo desejo expresso do Estado espanhol-, tem sido recolhida nesta emissora.
O controlo de ETA a respeito de Orain é de tal calibre que, segundo o auto, a direcçom da organizaçom armada indica a um dos seus interlocutores, o tal Garikoitz, a respeito do Conselho de Administraçom desta empresa, polos vistos num jornal de troco, que "nos resulta difícil dizer algo porque nom sabemos quem muda e quem pode ser colocado". Um processo muito controlado, sujeito a umha subordinaçom total, sem qualquer dúvida.
Vamos terminando. Resulta muito interessante a alusom do juiz Garzón à inexistência de dados sobre placas de carros policiais nas dependências de EGIN. Par que investigue, damos-lhe umha pista.
Há por volta de um mês, um carro, ocupado por duas mulheres, estava a gravar com umha cámara de vídeo todas a placas dos veículos estacionados junto da redacçom de Hernani. O carro fugiu do lugar ao comprovar que fora detectado polos trabalhadores. A seguir comprovou-se que a placa correspondia a um veículo reservado, quer dizer, policial. Este jornal pujo-se em contacto com o responsável do Departamento de Interior do Governo de Gasteiz, Jon Goikolea, para protestar por estas práticas.
O juiz di também que "nas próprias instalaçons de Orain-EGIN se achárom realçons de potenciais objectivos de ETA". Sem qualquer dúvida o mesmo poderia encontrar-se em qualquer outro meio de comunicaçom ou na própria Audiência Nacional. A questom reside, mais umha vez, em que Garzón nom demonstra que EGIN tenha posto a sua informaçom a disposiçom de ETA.
À vista de todo este cozido, só cabe concluir que nos achamos perante um flagrante atentado à liberdade de expressom, com o objectivo último de fazer calar a voz de um amplo sector social, fosse como fosse e sem reparar nos meios.